quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Para ler e refletir



Agenda 21

por Michelle Milhomem, assessora técnica do Programa Agenda 21 do Ministério do Meio Ambiente, e Daisy Cordeiro, pedagoga e consultora do Programa

Saiba como a escola pode discutir a sustentabilidade do planeta, um projeto que atinge mais de 4 mil instituições de ensino


A Agenda 21 é um processo de planejamento participativo no qual o governo e a sociedade definem e pactuam um plano de ação para o desenvolvimento sustentável, além de propor uma reflexão sobre as condições de vida do planeta. Tal reflexão tem sido feita em vários segmentos da sociedade e pode estender-se às escolas: a Agenda 21 Local pode ser feita a partir da Agenda 21 na Escola.

A Agenda 21 na Escola incentiva e soma esforços com o Grêmio Estudantil, a Associação de Pais e Mestres, o Conselho da Escola, a comunidade escolar, além de outras organizações, para discutir e realizar ações de proteção do meio ambiente e da promoção de ações que venham contribuir para a melhoria da qualidade de vida e a construção de sociedades sustentáveis.

É, portanto, um processo que, assim como a Educação Ambiental, deve ser inserido de forma transversal em todas as disciplinas da escola e nos projetos que envolvam a comunidade. Na prática, um grupo de professores e alunos interessados pode começar a construir a Agenda 21 na Escola.

O primeiro passo é a criação de uma comissão para mobilizar, desenvolver ações, acompanhar as atividades de Educação Ambiental e incentivar a construção da Agenda 21 na Escola. Mais de 4 mil escolas no País criaram Comissões de Meio Ambiente e Qualidade de Vida (Com-Vida), que são espaços de debates onde se definem as responsabilidades que a escola vai assumir, para contribuir com a sustentabilidade da comunidade local e construir a sua Agenda 21.

Dessa forma, a Agenda 21 é um importante instrumento para ampliar as ações da Com-Vida, pois possibilita o diálogo da escola com a comunidade da rua, do bairro, do município e nos faz perceber que comunidades sustentáveis só acontecem por meio de parcerias.

Os problemas vividos pela escola são muitas vezes mais amplos que o espaço físico e social, são da comunidade. A escola tem uma série de limitações para desenvolver os projetos que ela cria e encontra novas forças quando interage com outros parceiros, como, por exemplo, a Agenda 21 Local, ou com a rede de Com-Vida.

A parceria proposta leva a um esforço coletivo que definirá ações em conjunto, que implicam identificação das aspirações das famílias, comunidades e do poder público, possibilitando o exercício da cidadania ativa, a articulação dos objetivos e metas traçadas, com o propósito de tornar real e cotidiana a busca para a melhoria da qualidade de vida.

Nesse sentido, experiências podem ser encontradas nos municípios de Salvador (BA), Rondon do Pará e Santarém (PA), João Pessoa (PB), Petrópolis, Rio de Janeiro e Volta Redonda (RJ), Caraguatatuba, Ilhabela, Pilar do Sul, São Paulo, São Sebastião e Ubatuba (SP), onde as Agendas 21 na Escola estão sendo construídas dentro de um processo participativo, dialogando com os Fóruns das Agendas 21 Locais.

Para contribuir com a ação, oficinas de formação de professores e alunos estão sendo realizadas com o objetivo de difundir os conceitos da Agenda 21 e os princípios da Carta da Terra, visando refletir sobre a importância da participação de todos na construção da Agenda 21 Local e nas Escolas.

Para entender melhor os problemas das escolas e definições de ações prioritárias, foram criados grupos de trabalho permanentes, compostos de professores nos Fóruns da Agenda 21 Local. Isso tem permitido a participação ativa dos professores e alunos como elementos estratégicos nos processos de Agenda 21.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

VALE-TUDO PUBLICITÁRIO



VALE-TUDO PUBLICITÁRIO*

Neurociências a serviço do mercado
A investigação da atividade cerebral mostrou as áreas que devem ser estimuladas para tornar um produto altamente desejável. E, lançando mão do neuromarketing, uma centena de empresas já utilizam esses conhecimentos para vender sempre mais
Marie Bénilde

Reza a lenda que, em outubro de 1919, Lenin teria visitado o fisiologista Ivan Pavlov para ver como os trabalhos desse sobre os reflexos condicionados do cérebro podiam contribuir para a concepção do “novo homem” que os bolcheviques tentavam moldar na época. O cientista talvez servisse à propaganda do regime, associando, por meio de estímulos externos, pulsões instintivas a automatismos de transformação coletiva. Na verdade, Pavlov não foi de nenhuma valia para os bolcheviques, mas esse caso, verdadeiro ou falso, ilustra um fantasma que rondou o século 20: o da possessão de espíritos pela manipulação do inconsciente. Tal coisa permitiria vencer todas as resistências que podem acompanhar o uso da razão crítica. Desde então, uma propaganda é considerada eficaz quando percebe que sua assimilação será melhor se o receptor for psicologicamente condicionado a engoli-la — e a torná-la como sua.

As sociedades democráticas baniram de sua língua comum a palavra “propaganda”, que ficou associada apenas aos governos totalitários. No entanto, a exploração do cérebro com fins mercantis e a conseqüente manipulação das massas mostram que a sociedade de consumo não está longe disso. Ainda nos lembramos da famosa frase de Patrick Le Lay, presidente do canal francês TF1, que admitiu, em 2004, que sua rede tentava vender à Coca-Cola o “tempo de cérebro humano disponível”. O exemplo dessa marca — parceira privilegiada do TF1 — não se deve absolutamente ao acaso. No verão de 2003, Read Montague, neurologista do Baylor College of Medicine de Houston, mostrou que, se num blind test gustativo a concorrente Pepsi era a preferida, o inverso ocorria assim que se identificava claramente a bebida como sendo Coca-Cola. Os participantes da experiência declaravam então preferir o refrigerante das cores vermelha e branca.

Desse modo ficou demonstrada a superioridade da marca considerada como ás do branding, essa técnica que visa expor um logotipo no máximo de suportes, levando-o, até mesmo, a se imiscuir nos conteúdos (filmes, séries). Para estabelecer a conexão entre a imagem da marca e a estimulação do cérebro, a ciência recorreu a técnicas até então utilizadas com finalidades médicas para a detecção de tumores ou de acidentes cerebrais, como, por exemplo, imagens por ressonância magnética (IRM). Monitorando a atividade cerebral de seus pacientes, Montague observou que a região precisa do cérebro requisitada quando a pessoa via uma marca, o córtex pré-frontal médio, apelava para a memória e tinha um papel importante nos processos cognitivos. Por outro lado, o blind test gustativo envolvia a área cerebral denominada “putâmen ventral”, ligada à idéia de recompensa. A partir de abril de 2004, a Faculdade de Medicina de Baylor organizou em Houston o primeiro simpósio internacional consagrado às aplicações das imagens cerebrais ao marketing.

Três anos antes, em Atlanta, cidade onde fica a sede da Coca-Cola Company, o instituto Brighthouse, fundado pelo publicitário Joe Reyman, criava um grupo de especialistas encarregado de comercializar os ensinamentos de marketing extraídos das neurociências. O diretor científico do instituto, Clint Kilts, chegou às mesmas conclusões de seu colega de Houston, localizando no córtex pré-frontal médio a zona cerebral que reage às imagens publicitárias. Mas ele observou que essa reação é ainda mais significativa pelo fato de o sujeito se identificar com a imagem do produto, sendo tentado a dizer “isso é exatamente eu” [1]. A famosa região-chave do neuromarketing é efetivamente associada à auto-imagem da pessoa e ao seu conhecimento íntimo de si mesma (assim, por exemplo, os pacientes que têm o córtex pré-frontal médio lesado depois de um acidente sofrem freqüentemente perturbações da personalidade). Como explica Annette Schäfer na revista Cerveau et Psycho, “eis aqui o motor do comércio. O córtex pré-frontal médio nos faz gostar do que os outros gostam. Assim, conseguir estimulá-lo poderia ser um objetivo importante de uma campanha publicitária perfeita” [2]. Por isso, o córtex pré-frontal médio é para os neuromarqueteiros a pedra filosofal de uma alquimia perfeita: a operação que consiste em transformar todo o amor por si mesmo enquanto si mesmo (o narcisismo) em amor por si mesmo enquanto outro (o objeto publicitário).

Segundo Olivier Oullier, pesquisador de neurociências da Florida Atlantic University, existe atualmente uma centena de empresas no mundo que utilizam as técnicas do neuromarketing [3]. Contudo, elas são muito discretas com relação às experiências realizadas, temendo levantar uma onda de reprovação na opinião pública. Em 2003, por exemplo, uma dessas empresas, a Daimler Chrysler, confiou ao Centro Hospitalar de Ulm, na Alemanha, a tarefa de escanear cérebros submetendo imagens de carros sofisticados a uma dezena de homens.

Constatou-se então a importância do “núcleo accumbens”, região ligada à sensação de recompensa. A experiência mostrou que o objeto de consumo pode se assemelhar a um objeto de desejo por meio de um verdadeiro processo de personificação. “Quando olhavam os carros, estes lhes lembravam rostos; os faróis pareciam um pouco com os olhos”, expõe Henrik Walter, psiquiatra da Universidade de Ulm, a propósito dos indivíduos investigados [4]. Os publicitários viram nisso a confirmação de um procedimento amplamente utilizado: é preciso reforçar nas peças publicitárias a correlação instintiva entre desejo sexual e pulsão de compra. “O consumidor deve poder sentir a marca, agarrar-se a ela como um amante”, afirma, sem sorrir, Kevin Roberts, diretor executivo da Saatchi & Saatchi [5].

Esses empreendimentos de validação científica da publicidade devem ser levados a sério? O fato é que, aos olhos dos profissionais, eles têm o mérito de aumentar a garantia da difusão de mensagens publicitárias na mídia, num momento em que a internet permite, clique após clique, seguir as pegadas do comportamento do consumidor. Assim, o neuromarketing nasce do encontro entre executivos de empresas preocupados em legitimar internamente suas despesas de comunicação, agências de publicidade desejosas de valorizar sua contribuição (a agência BBDO, de Dusseldorf, trabalha com o conceito de brainbranding, que tenta determinar como certas marcas entram na memória episódica do cérebro) e grandes mídias inquietas com o aumento do poder dos novos vetores de comunicação.

O sindicato francês da publicidade televisada, presidido por Claude Cohen, também presidente da TF1 Publicité, há algum tempo se interessa pelo que chama de “mecanismos de memória não conscientes”. Por meio do instituto privado Impact Mémoire, que se esforça por tirar partido das “técnicas de imagens funcionais cerebrais”, realizou um estudo com 120 pessoas sob o pretexto de testar a sua acuidade visual. Enquanto as cobaias tentavam detectar quadradinhos verdes em telas de computadores, difundiam-se intermitentemente publicidades num lugar bem visível. Paralelamente, a mesma experiência era realizada com spots de rádio e cartazes.

Como sugere a lógica, a mídia que associa som e imagem é a que obtém a melhor pontuação de memorização inconsciente das mensagens publicitárias. Um dos fundadores do Impact Mémoire, Bruno Poyet, resumiu o propósito do teste. Segundo ele, “a atenção é necessária a uma boa retenção mnésica. Uma conotação emocional forte acentua a atenção. Uma grande carga emocional gera a secreção de certas substâncias pela amígdala e essas substâncias favorecem a memorização” [6].

É esse contexto “emocional”, propício à publicidade destinada a donas de casa de menos de cinqüenta anos, que a TF1 procura criar em seus programas. Em novembro de 2003, o canal publicou na imprensa especializada um anúncio com uma frase eloqüente: “Uma publicidade inserida no meio de um programa do TF1 obtém 23% de memorização suplementar”. O neurologista Bernard Croisile, outro fundador da Impact Mémoire, lembra que se “nenhum estudo existente permite provar que o conteúdo de uma emissão condiciona a resposta às publicidades que virão a seguir […] o que se pode dizer é que, quando estamos numa situação emocionalmente positiva, retemos melhor os elementos positivos, do mesmo modo como os depressivos assimilam melhor as informações negativas [7]. Trata-se, portanto, de oferecer ao telespectador a sua dose de emoção prazerosa.

Assim, a implicação das neurociências — ou de seus avatares — nas indústrias da publicidade tem um futuro auspicioso diante de si. Em março de 2007, a Omnicom, líder mundial da publicidade, lançou na França a agência de consultoria em mídia PHD. Essa rede, surgida na Grã-Bretanha, apóia-se num aplicativo de neuroplanning criado a partir de estudos realizados por meio de ressonância magnética. A PHD pretende mostrar às empresas as zonas do cérebro que devem ser estimuladas de acordo com os objetivos de suas campanhas e das mídias utilizadas.

O conhecimento íntimo do cérebro do consumidor não pode ter outro resultado senão incitar as empresas, e os responsáveis por sua publicidade, a transcender os limites que normalmente lhes são reservados para comunicar. Na verdade, a excelência das condições de receptividade de uma marca é julgada tanto maior quanto menos o “alvo” tem consciência de ser visado. É isso que explica o avanço do advertising”, esse cruzamento híbrido da publicidade com o entretenimento, do qual se tem um exemplo recente no jogo da França com a Argentina, realizado no Stade de France durante a Copa do Mundo de Rugby. Jovens modelos vestidas com roupas íntimas dançaram nos degraus, seguidas atentamente pelas câmeras do TF1, numa “criação” da agência de publicidade Fred-Farid Lambert para a marca Dim.

O merchandising, a inserção de produtos nos conteúdos de filmes, séries de tevê etc., também ganha terreno, como testemunha o surgimento de contratos globais ligando produtores, difusores e anunciantes. Em 2001, o conglomerado da Procter & Gamble fechou um contrato de 500 milhões de dólares com o grupo Viacom e a cadeia CBS para introduzir seus produtos nos cenários. Quatro anos depois, foi a vez de a Volkswagen investir 200 milhões de dólares para pôr seus veículos nos filmes dos Estúdios Universal e de sua cadeia, a NBC. Em 2005, a filial francesa da central de compras de espaço Aegis criou também a Carat Sponsorship Entertainment para introduzir a publicidade no conteúdo dos programas e torná-la mais bem aceita pelo consumidor. Ela foi imitada em 2007 pela filial Havas Entertainment.

Se ainda se supõe que o Conselho Superior do Audiovisual da França cuida de proibir qualquer publicidade clandestina na televisão, a transposição para a lei francesa da diretriz européia Televisões sem Fronteira, anunciada para 2008, promete autorizar definitivamente a inserção de produtos nos programas, como escancaradamente acontece nos Estados Unidos. O limite diário de doze minutos de publicidade para cada hora deverá assim ser abrandado de modo a permitir a difusão de mais publicidade durante o horário nobre. Paralelamente, prosperam emissões como Question Maison (França 5) ou Du Côté de Chez Vou (TF1), que devem sua existência exclusivamente à entrada da marca Leroy Merlin na produção de conteúdos. É claro que o inconsciente do telespectador não foi reivindicado abertamente. Mas, por trás do telespectador, ainda e sempre, é o consumidor que se busca.

[1] Ver “There is a sucker born in every medial prefrontal cortex”, The New York Times Magazine, 26 de outubro de 2003.

[2] “Vous avez dit neuromarketing?”, Cerveau et Psycho n.º 7, setembro-novembro de 2004.

[3] Ver “Neuromarketing: les bases d’une discipline nouvelle”, em 20 de fevereiro de 2007.

[4] Ver “There is a sucker born in every medial prefrontal cortex”, The New York Times Magazine, 26 de outubro de 2003.

[5] Stratégies, Issy-les-Moulineaux, 11 de novembro de 2004.

[6] Ver o site da associação das agências de consultoria de comunicação.

[7] Stratégies, 7 de outubro de 2004.

Extraído do site:
http://diplo.uol.com.br/2007-11,a2000?var_recherche=neuroci%C3%AAncia

* material extra, leitura não obrigatória para as aulas.

Os Donos do Poder gerar



Os Donos do Poder gerar*

Resenha do texto: FAORO, Raymundo. (1979). Os Donos do Poder: Formação do Patronato Político Brasileiro. (vls.1 e 2). Porto Alegre: Ed. Globo.

Por: Sabrina Evangelista Medeiros

Em novembro de 2000, Raymundo Faoro, aos 75 anos, fora eleito para a cadeira de número 6 da Academia Brasileira de Letras – ABL (antes de Barbosa Lima Sobrinho, que morreu recentemente). Um dos maiores motivos para a sua eleição e conseqüente vitória foi a sua mais importante obra, Os Donos do Poder, de 1958. Três anos depois, foi vítima de enfisema pulmonar e morreu. Apesar de tamanho prestígio, ao longo de sua carreira o jurista Raymundo Faoro recebeu críticas contundentes de gerações e espectros diferentes da intelectualidade e da política, que não deixaram de concordar sobre a relevância para a história e pensamento político brasileiro de suas obras.
Particularmente, o marco maior de Os Donos do Poder seria a ansiedade de tratar, com detalhes, tamanha história brasileira (desde as origens do Estado Português colonizador) afastando-se das interpretações marxistas, então em voga na intelectualidade. Talvez pela intensidade de suas análises, rigorosamente combatidas pela esquerda que acusava-o de ser um radical liberal, Raymundo Faoro pôde ser tão lido e respeitado. Nesse sentido, Os Donos do Poder não ganhou também a simpatia da direita que, ao tempo do lançamento da obra, acreditava que o país estava vivendo um estágio avançado de capitalismo, com instituições sólidas e uma economia crescente; o que, finalmente, contrastava com o que Faoro escrevia sobre o perpetuamento do patrimonialismo no Brasil.
Os Donos do Poder é, por excelência, uma obra de mapeamento da evolução política do Brasil, desde a herança absolutista portuguesa - onde o Estado é analisado segundo a esfera de atuação dos ensejos pessoais do rei – até a República Velha e o Estado Autoritário Varguista – pelo qual permaneceram estreitos os laços entre a esfera pública (a burocracia) e a privada (o estamento que controla a primeira).
No prefácio da edição em análise nesta resenha, citando Montaigne, Faoro diz que seu ensaio permanecia inalterado segundo suas hipóteses e linhas centrais, e que o formato tinha sido apenas ajustado às suas concepções mais recentes. Reiterava dizendo que o conceitos básicos – como feudalismo, patrimonialismo e estamento burocrático - continuavam sob o enfoque anterior. E dizia ainda, defendendo-se de acusações diversas: “Advirta-se que este livro não segue (...) a linha de pensamento de Max Weber. (...) De outro lado, este ensaio se afasta do marxismo ortodoxo, sobretudo ao sustentar a autonomia de uma camada de poder, não diluída numa infra-estrutura esquemática, que daria conteúdo econômico a fatores de outra índole”.
Assim sendo, Raymundo Faoro confirma suas escolhas dando um tom de originalidade ao entendimento das instituições públicas brasileiras. Ao começar pela tríade proposta – feudalismo, estamento burocrático e patrimonialismo – cada um desses conceitos, seqüencialmente, conjuga o seguinte. Resumidamente (correndo o risco de ser simplista), o feudalismo constituiria a divisão social predominante da Idade Média que daria origem às conquistas políticas de um dos estamentos – considerados as divisões da sociedade segundo a posição não somente econômica mas, sobretudo, cultural (o status, prestígio) – sob a forma corporativa (burocrática) e, consequentemente, o usufruto deste estamento da esfera de atuação política (gerando os laços patrimonialistas nas instâncias do Estado).
O primeiro capítulo traça o que seriam as origens do Estado Português. Essencialmente, Faoro trata de, na qualidade de jurista, demonstrar as condições administrativas de que gozou o Estado Português ao se tornar um Estado formado pelo gerenciamento dos interesses de uma burguesia comercial ascendente, e não por relativa autonomia política de senhores feudais.
Em sua concepção história, assim, o feudalismo não teria existido em Portugal, a não ser pela sua condição de atenuante da divisão entre campo e cidade, e pela afirmação da divisão social em estamentos – o que prevaleceria na colonização e na administração do Brasil. Finalmente, aliados estes elementos – o comércio, a administração e o príncipe – o direito romano seria reapropriado, de forma a dar consistência política ao poder patrimonial do Estado Português.
Em seguida, parte para o bojo da explicação política, através da Revolução de Avis, para o que chamou de capitalismo monárquico – fundamentado no sistema de exploração econômica ultramarina. Na medida em que o Estado se criava com base no inchaço de servidores do sistema burocrático, o sistema político ia sendo afiado por um estamento particular balizado nas relações patriarcais entre dominadores e dominados.
Raimundo Faoro criou as condições teóricas para reafirmar os pressupostos ditos desde o início: os de que o capitalismo limitante patrimonialista não evoluiria, assim como constatado na crise de Portugal e do Estado Brasileiro, e que a modernização deveria ser calcada na liberalização política e econômica, dificultada no Brasil pelas heranças do estamento burocrático. Neste momento, a tendência de acreditar em uma modernização liberal deixa explícito seu entendimento de Estado como espaço de atuação de um estamento atrasado e como cerceador da liberdade do povo.
O Brasil até o Governo Geral e A Obra de Centralização Colonial aparecem como um mapeamento da invenção do sistema político da América, baseado na distribuição de terras, no predomínio do que chamou de conteúdo dominial sobre o administrativo. Assim, o feudalismo brasileiro ocasionaria na distribuição dos privilégios que acarretariam na formação de um Estado Soberano pelos seus atributos militares, centralistas, controladores. Juridicamente, o sistema propiciou a criação das sesmarias, do foral e das cartas de doação como formas de propiciar o capitalismo agrário dominado pela monarquia absolutista.
Em Traços Gerais da Organização Administrativa, Social e Econômico-Financeira da Colônia, A Reação Centralizadora e Monárquica e O Sistema Político do Segundo Reinado, Faoro trata de abordar as instâncias políticas pelas quais houve uma tendência à manutenção do centralismo; os primeiros conflitos entre as classes sociais; a luta entre o poder moderador e o poder parlamentar; a constituição da autoridade monárquica do Brasil Independente ainda baseado no estamento burocrático.
Com base na manutenção do sistema burocrático de privilégios, As Tendências Internas da República Velha, Mudança e Revolução e os Fundamentos Políticos, demonstram que o sistema político alimentado pela nova burguesia cafeeira continuou sob bases frágeis, na medida em que estendia os interesses do estamento burocrático para as políticas públicas a favor da manutenção da distância entre o povo e o Estado. O federalismo, que trouxe consigo a ideologia liberal, acabou por, paradoxalmente, consolidar o regionalismo coronelista e a política protecionista. O liberalismo, se executado em nome de interesses macroeconômicos não limitados pela burocracia estamental, teria tido a chance de fazer a Pátria prosperar. Faoro nos diz: “Com otimismo e confiança será conveniente entregar o indivíduo a si mesmo, na certeza de que o futuro aniquilará a miséria e corrigirá o atraso. No seio do liberalismo político vibra o liberalismo econômico, com a valorização da livre concorrência, da oferta e da procura, das trocas internacionais sem impedimentos artificiais e protecionistas”. (FAORO, 1979: 501).
Assentado no tradicionalismo das estruturas políticas, o patrimonialismo de Raymundo Faoro sinalizou a certeza de que falou, em entrevista em 1999 à Folha de São Paulo, de que o Estado poderia criar os inimigos que a democracia conheceu durante suas ditaduras, construídos através da existência de relações ambíguas entre pessoas e política, ofuscando a esfera de atuação pública e limitando-a a um estamento (im)próprio.

MEDEIROS, Sabrina Evangelista. Resenha do texto: Os Donos do Poder.Rio de Janeiro: Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, ano 2, n. 24, 2007. [ISSN 1981-3384]

Extraído do site: http://www.tempopresente.org

*material extra, leitura não obrigatória para as aulas.

O legado crítico de Pierre Bourdieu



O legado crítico de Pierre Bourdieu*

MARCO WEISSHEIMER

O sociólogo francês Pierre Bourdieu morreu na noite do dia 23 de Janeiro, num hospital de Paris, em consequência de um cancro, aos 71 anos de idade. Catedrático de sociologia no Colége de France, Pierre Bourdieu era considerado um dos intelectuais mais influentes da sua época. A educação, a cultura, a literatura e a arte foram os seus primeiros objectos de estudo. Nos últimos anos, Bourdieu vinha-se dedicando ao estudo dos meios de comunicação e da política. Autor de uma sofisticada teoria dos campos de produção simbólica, o sociólogo procurou mostrar que as relações de força entre os agentes sociais apresenta-se sempre na forma transfigurada de relações de sentido. A violência simbólica, outro tema central da sua obra, não era considerada por ele como um puro e simples instrumento ao serviço da classe dominante, mas como algo que se exerce também através do jogo entre os agentes sociais.

Um dos pontos mais originais da obra de Bourdieu reside na vontade de superar o que ele chamava de "falsas antinomias" da tradição sociológica – entre interpretação e explicação, estrutura e história, liberdade e determinismo, indivíduo e sociedade, objectivismo e subjectivismo. Pierre Bourdieu não era apenas um pesquisador excepcional, reconhecido pela comunidade académica internacional, mas um intelectual empenhado nas lutas sociais e no debate público, na tradição francesa que reúne nomes como Émille Zola e Jean-Paul Sartre. Na década de 90, aprofundou esse seu empenhamento nos movimentos sociais, trabalhando pela criação do que chamava “uma esquerda da esquerda”, ou seja, uma esquerda que recusasse os compromissos que, ao longo do século XX, foram sendo assumidos pela esquerda europeia mais tradicional. No caso da França, especialmente pelo Partido Socialista. Em 1992, o sociólogo afirmou: “Dez anos de poder socialista (a era Miterrand) provocaram a demolição da crença no Estado e a destruição do Estado-providência em nome dos ideais liberais”.

"A cidade dos sábios"

Face ao silêncio dos políticos diante dos problemas sociais, Bourdieu passou a apelar para a mobilização dos intelectuais. “O que defendo”, costumava dizer, “é a possibilidade e a necessidade do intelectual crítico”. Para Bourdieu, não pode haver democracia efectiva sem um verdadeiro contra-poder crítico. O sociólogo dedicou os seus últimos anos de vida a combater o neoliberalismo sob todas as suas formas. Colocou os seus conhecimentos científicos ao serviço do empenhamento político. Numa de suas últimas obras, Contre-feux 2, Pour um mouvement social européen, Bourdieu afirma: “Fui levado pela lógica do meu trabalho a ultrapassar os limites que eu mesmo havia estabelecido em nome de uma ideia de objectividade que, percebi, era uma forma de censura”. Ultrapassar esses limites, para ele, significava tirar o saber para fora da “cidade dos sábios” e colocá-lo a serviço das lutas sociais contra o neoliberalismo.

Um dos principais alvos de crítica de Bourdieu, nos seus últimos anos de vida, foram os meios de comunicação, que estariam, segundo ele, cada vez mais submetidos a uma lógica comercial inimiga da palavra, da verdade e dos significados reais da vida. Era um crítico feroz do lixo cultural produzido pelos média contemporâneos. Na sua obra Questions aux vrais maîtres du monde, afirmou: “Esse poder simbólico que, na grande maioria das sociedades, era distinto do poder político ou económico, hoje está concentrado nas mãos das mesmas pessoas que detêm o controlo dos grandes grupos de comunicação, quer dizer, que controlam o conjunto dos instrumentos de produção e de difusão dos bens culturais."

Bourdieu também era um crítico da globalização (ou mundialização, como preferem os franceses) financeira. Recusava a escolha entre a mundialização concebida como “submissão às leis do comércio” e a defesa das culturas nacionais ou de qualquer forma de nacionalismo ou localismo cultural. Ao fazer essa recusa, defendia a construção de um movimento social europeu como primeira etapa da construção de um movimento social internacional, no espírito daquele que tem vindo a ser construído em torno do Fórum Social Mundial. Deixa um legado importante e uma convocação veemente aos intelectuais para que abandonem a “cidade do saber” e passem a enfrentar o som e a fúria do mundo.



Extraído do site: http://www.espacoacademico.com.br/010/10bourdieu02.htm

* material extra, leitura não obrigatória para as aulas.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Textos para próxima aula, dia 14/02

Fundamentos epistemo-metodológicos da educação ambiental
Sônia Maria Marchiorato Carneiro

RESUMO
As relações sociedade-natureza são contextualizadas a partir das analogias orgânica e mecânica ao foco de uma epistemologia ambiental, frente à crise civilizatória no mundo ocidental; nessa linha, o paradigma da complexidade fundamenta a superação das ambigüidades do desenvolvimento sustentável em prol de uma apropriada sustentabilidade socioambiental e, pois, possibilitando práticas de Educação Ambiental criticamente orientadas por uma nova pedagogia do conhecimento, com implicação de novos saberes e construção de novas relações entre pessoas, sociedade e o meio natural, sob uma Ética da Responsabilidade.

Palavras-chave: relações sociedade-natureza; epistemologia ambiental; educação ambiental.

Para ter acesso ao artigo completo, clique aqui http://www.scielo.br/pdf/er/n27/a03n27.pdf



Aspectos Políticos e Pedagógicos da Educação Ambiental no Brasil: um convite à reflexão
Carlos Frederico B. Loureiro

RESUMO
No presente artigo analiso o processo de institucionalização da Educação Ambiental no Brasil e as implicações políticas e pedagógicas de abordagens teórico-metodológicas que a compõe, posicionando-me no campo crítico.
Considerando as múltiplas nuances conceituais e a historicidade dos acontecimentos, o contraponto analítico é estabelecido entre a perspectiva emancipatória ou crítica, baseada em pedagogias libertárias e histórico-críticas, no método dialético e na teoria da complexidade, e a perspectiva conservacionista, fundamentada na pedagogia de projetos ou nas pedagogias de cunho comportamental, no pragmatismo e na teoria de sistemas. Com isso, sinalizo para a necessidade de reconhecimento da Educação Ambiental como campo de saber plural, dinâmico e conflituoso nas proposições e ações dos agentes sociais envolvidos e para a compreensão do que representa a incorporação de determinados posicionamentos diante dos desafios que os educadores ambientais se colocam. Por fim, reafirmo a especificidade da Educação Ambiental na prática educacional e sua pertinência para a concretização de um distinto patamar societário na natureza.

Para ter acesso ao artigo completo, clique aqui
http://www.sesc.com.br/services/

Crítica ao fetichismo da individualidade e aos dualismos na educação ambiental
B. Loureiro

RESUMO
No presente artigo estabelecemos a crítica a duas categorias recorrentes em Educação Ambiental, tanto em termos práticos quanto discursivos: o fetichismo da individualidade e os dualismos escola-sociedade, linguagemtrabalho.
À luz de um referencial teórico inserido na tradição dialética emancipatória, problematizamos os limites e as implicações pedagógicas de tais categorias no fazer educativo ambiental. Com isso, sinalizamos para a necessidade de maior reflexão e debates acerca do que representa a incorporação de certos posicionamentos a-históricos e não-dialéticos, apesar de por vezes relacionais, diante dos desafios e finalidades que os educadores ambientais historicamente se colocam. Por fim, reafirmamos a pertinência do método dialético marxiano, quando se tem por objetivo a construção de uma Educação Ambiental baseada na compreensão complexa e contextualizada da realidade e focalizada na superação das relações sociais estabelecidas no capitalismo, como caminho para a concretização de um novo patamar societário na natureza.

Palavras-chave: Educação Ambiental; fetichismo; dualismo; crítica; dialética
emancipatória.

Para ter acesso ao artigo completo, clique aqui
http://www.scielo.br/pdf/er/n27/a04n27.pdf

Os dois textos que estavam faltando:
Trajetória e Fundamentos da Educação Ambiental; cap. 4 (pág. 79 a 88)
Carlos Frederico B. Loureiro
Pensamento Complexo, Dialética e Educação Ambiental; cap. 1 (pág. 15 a 27)
Mauro Magalhães

Boa leitura!




Bem Vind@s!

Bem vind@s ao blog do Curso de Especialização em Educação Ambiental na Era da Globalização!

Tal espaço vem para suprir o lugar de nossa página da internet, que ainda está em construção. Esperamos aqui poder trocar informações e divulgar materiais sobre a questão ambiental a partir de uma perspectiva hipercrítica e holística.

Participem!